sábado, 27 de setembro de 2014

Vindima

Mosto, descantes e um rumor de passos
Na terra recalcada dos vinhedos.
Um fermentar de forças e cansaços
Em altas confidências e segredos.

Laivos de sangue nos poentes baços.
Doçura quente em corações azedos.
E, sobretudo, pés, olhos e braços
Alegres como peças de brinquedos.

Fim de parto ou de vida, ninguém sabe
A medida precisa que lhe cabe
No tempo, na alegria e na tristeza.

Rasgam-se os véus do sonho e da desgraça.
Ergue-se em cheio a taça
À própria confusão da natureza.


Miguel Torga


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Chora ó videira

Antoninho, cacho d´uva,
Oh quem te depenicara:
De baguinho, em baguinho,
Que nem um só te deixara.

Ó meu amor, vinho, vinho
Que eu água não sei beber;
A água tem sanguessugas,
Tenho medo de morrer.

Vinho feito a martelo,
bebe-se de qualquer maneira;
Mas para animar a malta,
Não há como o da videira.

A videira muito alta
Faz sombra, não dá mais nada;
Mas para dar belas uvas
Precisa de ser podada.

Menina que anda na vinha,
Dê-me um cachinho alvar;
Que eu lhe darei um arinto,
Quando o meu pai vindimar.

Não quero ricos cavalos,
Nem os palácios reais;
Queria ter uma adega
Com trinta pipas ou mais.

Chora a videira,
Chora a videirinha;
Chora a videira
Olha a rosa minha.

Chora a videira,
Chora, chora, chora
Pelo vinho mosto,
Que se vai embora.

ALEGRIAS POPULARES, Cancioneiro Folclórico do Concelho de Seia, BA, Jaime Pinto Correia, vol. I, 1952, vol. II, 1967

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Mapa da nossa aldeia

Temos hoje uma publicação um pouco diferente das que têm sido apresentadas neste blog. Hoje temos um mapa da nossa aldeia. A visualização direta da imagem não permite a observação de todos os pormenores inseridos no mapa, deixo assim o convite para todos os que pretendam obter o mapa original para me contatarem através do e-mail aldeia.valbom@gmail.com ou pelo facebook Aldeia Valbom para que eu possa enviar o mapa com a devida qualidade. Espero que se divirtam nesta viagem virtual pela nossa aldeia! Gostaria de deixar um agradecimento especial ao autor do mapa pela elaboração e partilha connosco. 


Algumas partes do mapa que apenas são visíveis com recurso à ferramenta zoom no mapa original





sábado, 6 de setembro de 2014

O vinho

O vinho vem da videira
A videira da cepa torta
No pipo corre pela torneira
E dele muita gente gosta
O vinho alegra a vida
Bebido com moderação
Mas há muita alma perdida
Por o beber sem restrição
Seja ele branco ou tinto
Verde, maduro ou alvarinho
Como néctar distinto
Deve-se tratar com carinho
O homem gosta do vinho
Porque lhe dá alegria e vigor
Eu também gosto de um copinho
Pois faz-me sentir melhor


Manuel Pires


terça-feira, 29 de julho de 2014

Do postigo da minha porta

Do postigo da minha porta
Vejo gente a passar
E coisas que pouco importa
Estar para aqui a comentar

Do postigo da minha porta
Vejo coisas de pasmar
Vejo as couves da minha horta
E quem me as anda a roubar

Do postigo da minha porta
Tudo consigo enxergar
Até a natureza morta
Que teima em rebentar

Manuel Pires


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Saudades da minha aldeia

Meus sonhos deixei um dia
Na aldeia que me viu nascer
Correndo por aquelas ruelas
Me tornei mulher, aprendi a viver

E em cada dia relembro
Sonhos que acalentava
E senti tristeza ao ver
Que dali, nada mais lembrava

E hoje sinto saudades
Fico triste e franzo a testa
Pois ao olhar para trás
Desses sonhos já nada resta

De: Ventania Poetica Beirã 


domingo, 1 de junho de 2014

O melhor do mundo são as crianças

O melhor do mundo são as crianças
Que têm a inocência do bem,
E o futuro da humanidade
Nos olhos que sorriem.
Têm a beleza nas tranças,
A sabedoria de mais ninguém,
Nas lágrimas, felicidade,
E amor por outro alguém.

Gosto de ver a traquinagem
Inocente, do mais reguila miúdo
Que parte o vidro e mente
À gente, mesmo que seja sem querer.
Olha o mundo e tem coragem,
Acredita no nada e no tudo,
Cai no chão e segue em frente,
E sabe agora o que é ser.

Mário L. Soares
mote de Fernando Pessoa