segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Dia de Reis

              O dia de Reis é, segundo a tradição cristã, aquele em que Jesus Cristo recebeu a visita dos três Reis Magos. É esta a data de encerramento dos festejos natalícios, sendo hoje desmontados os presépios assim como os adereços natalícios. Era tradição há alguns anos cantarem-se os reis de porta em porta. As pessoas iam de casa em casa e eram convidados pelos donos da casa a entrar e comer alguma coisa.
Por cá, cantava-se com os seguintes versos:

Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras

Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas

Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte

Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra

Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas, pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza

Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura

Ou também

Ano Novo, Ano Novo
Ano novo melhor ano
Viemos cantar as janeiras
Como é lei de cada ano

Se nos as vai dar
Não esteje a demorar
Somos romeiros de longe
Não podemos cá voltar

Oh que casinhas tao altas
Forradas de papelão
Levante-se minha senhora
E venha-nos dar um salpicão

(E se não dessem nada)

Estes barbas de farelo
Não tem nada para nos dar
Só tem um caixote podre
Onde os ratos vão cagar



quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A apanha da azeitona

De vez em quando vou até ai… gosto disso, dessa terra, dessa penedia a quem o tempo deu um ar macio de travesseiro, amansando as arestas, e que no entretanto fez essa terra fértil que tudo cria. A última vez fui à azeitona… e tento deixar-vos o que senti… Pinhel / Valbom 15 de Dezembro de 2012

A apanha da azeitona tem significados diferentes para espíritos diferentes. Para uns representa apenas um trabalho, mais duro que os outros, quer por força dos rigores do tempo, quer pela dureza da tarefa em si. Para outros ainda, reveste-se do misticismo que a associação ao azeite propícia. Afinal a azeitona é apreciada em tantas vertentes que não a valorizar é uma heresia. Em terras de Valbom, para a maioria das pessoas, parece ser apenas um trabalho difícil, mas que precisa ser feito, cumprindo os tempos adequados, pois que só o frio curte a azeitona ate lhe deixar o precioso azeite em termos de ser extraído. De Coimbra partem visitantes de dois tipos, já assíduos e batidos nesse trabalho, outro ainda verde e virgem. Uns levam alguma apreensão porque sabem da dureza que vão enfrentar, outro leva algum receio pelo que lhe foi dito, que depois é acrescido por saber que outras pessoas, para além das do costume, aquelas que já conhece e que a conhecem, estarão no campo. Fica o receio de não ser capaz de cumprir, sabendo contudo que dará o seu melhor, o que fizer será o melhor que consegue. Chegam a Valbom já bem perto das nove, porque foram alguns os entraves logísticos que se colocaram à viagem. O frio que aterrorizou as mentes esqueceu-se de vir e mesmo a chuva, que tão anunciada foi, parece estar para outras paragens. Os trabalhos já tinham sido começados e os visitantes, com a farpela de trabalho vestida apenas tiveram que pegar na ferramenta. Para ele estava um varapau à espera, com o qual iria vergastar as oliveiras pra lhe arrancar as azeitonas. Para elas esperavam as lonas e os baldes (que por estas terras tem outros nomes!). As primeiras servem para forrar o chão e apanhar as azeitonas que os homens com a força de braços derrubam. Os baldes permitem recolher as azeitonas que se escapam ou que o vento já se tinha encarregue de varejar, este sim é um trabalho duro, que verga as costas e desgasta os dedos, por força da fricção com o restolho das ervas ou com as lamas deixadas pela chuva. Para quem assiste pela primeira vez o espetáculo é doloroso. Dói ver as jovens oliveiras a ser vergastadas com força, mesmo sem ser com violência, que é um bater duro mas doce, se a antítese for permitida. Sente-se a gratidão da colheita na forma como se manuseia o varapau. Para quem apanha as lonas não é muito duro, exige alguma velocidade e destreza mas nada de transcendente. Por volta das dez horas come-se o farnel, que a Lucinda arranjou com carinho e desveio, pão e queijo, bola de carne, bolo-rei que o tempo já sido nos lembra e vinho para temperar a lama. E de novo se começa o trabalho, com uma ou outra ameaça de chuva (que umas conversas com S. Pedro vão resolvendo) mas com uma falta de frio que obriga a despir as sucessivas camadas de roupa. Para quem estas lides são novidade é delicioso olhar para as azeitonas e sentir as suas rugas, aperta-las entre os dedos e sentir que por baixo da aparente dureza se esconde uma polpa suave e mole. Até apetece comer, mas memórias de experiencias de infância fazem assomar um sorriso aos olhos e deixar os apetites para depois, com outras, que a água e o sal tenham tornado mais doces. São feitos os mesmos caminhos que em Setembro permitiram recolher as uvas. Esta terra produz em abundancia dois dos mais preciosos líquidos da cultura gastronómica do nosso país, o vinho e o azeite. Não deixa de ser interessante constatar que os locais que os acolhem são os mesmos. Será a terra? Será o clima? Será o casamento de ambos, terra e clima, que permite a proximidade de oliveiras e videiras em perfeita harmonia? É uma terra abençoada esta… por aqui tudo se cria, numa completa antítese às leis de Lavoisier, parece quase um desafio… Embora com dificuldade, conseguiu fazer-se toda a colheita. De regresso a casa falta ainda erguer todo o fruto para eliminar as folhas que foram varejadas junto com as azeitonas. Este processo consiste em fazer passar os frutos por uma máquina que possui uma ventoinha que faz sair as folhas e recolhe os frutos. Este sim é um trabalho duro que obriga a um esforço físico intenso, sobretudo para quem passou o dia a manusear um varapau mais ou menos pesado. No atrelado do trator, essa ferramenta de trabalho preciosa que tanto poupa aos braços dos homens e mulheres e às pernas dos burros, são transportadas as azeitonas, quando se enche a azeitona para os baldes, potes por estas bandas, o chão vai-se tornando mais e mais escorregadio graças às azeitonas esmagadas pelos pés, que vão libertando os seus sucos, deixando uma pelicula de gordura que obriga a um exercício de cuidado continuo para evitar o tombo. Por baixo, junto à máquina, o encher dos sacos obriga os homens a um cuidado e a uma destreza para impedir que se derrame azeitona e assim evitar mais trabalho. Quando as ultimas azeitonas foram vertidas para a máquina o corpo foi autorizado a acusar algum cansaço, faltava apenas arrumar o folhedo e depois rumar ao banho e à janta que a hora era chegada. Para esse jantar estava prevista uma feijoada de cogumelos, que embora tardia acabou por sair. O serão, esse foi como sempre em casa do Pedro, longo, muito longo, com a conversa que se faz à volta de um (ou vários!) copo e um queijo. O domingo chegou rápido e com bastante chuva, mesmo assim permitiu uma saída rápida até à horta para colher umas nabiças, uns grelos e umas couves que mais tarde, e mais para sul, ajudam a mitigar alguma nostalgia que deixam a terra e as gentes de Valbom.


Autoria: Anabela Bragança



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A fogueira no adro da Igreja

As batidas ledas do sino espalham-se pelo adro festivo, envolvendo a fogueira dolente, prosseguem até aos limites obscuros da aldeia, e continuam para além dela. Homens sisudos olham as labaredas fulvas, de mãos nos bolsos. Estalidos quentes irrompem pelo espaço cónico, que durante a tarde os rapazes da aldeia ergueram, feito de troncos de pinheiro e raízes de velhas oliveiras. Crianças irrequietas saltitam por ali, indiferentes a tudo. Um rapazito puxa pela aba do casaco do pai – Amo-te – “A – mo – te”. Ouvia o eco límpido das três sílabas, distintas, desventrando a noite (e a vida) como relâmpagos. Tinha a certeza que sim. A memória não o enganava. Não aquela memória límpida e cristalina. Já passaram anos. Mas como poderá algum dia esquecer esta simples palavra, estas três sílabas lúcidas. Tinha a certeza que fora esta a palavra proferida anos antes. «Mas o que é dizer?» Pensava para si mesmo. Afinal, as palavras são ocas. As palavras não trazem consigo o objecto a que se referem. Qual a diferença entre uma palavra sedutora, que nos enche e ilumina, mas que não têm qualquer substância, e outra, que ainda que seja uma profunda expressão da alma, não provoca qualquer ressonância em nós? As palavras são meras pontes, janelas que se abrem sobre o horizonte, não trazem consigo os automóveis que as atravessam, nem os pores-do-sol dourados. Ouviria aquele eco antigo até ao último soluço de vida. Aquela palavra, sedutora entre as sedutoras, que como todas as outras, retiradas todas as contingências e idiossincrasias, não é nada mais que o som produzido pelas cordas vocais, e refinado entre a ponta da língua, o céu-da-boca e o ligeiro toque nos dentes – ou o traço, mais ou menos arredondado, da tinta sobre o papel.
Era Natal. Mais um Natal frio, na aldeia. Há quantos anos se reuniam ali aqueles homens? E quantos antes deles, foram pelos campos granjeados, em busca de velhos troncos? Quantos depois dele viriam? «Poucos» Pensava. Quanto tempo falta para que a aldeia deixe de existir na memória dos seus habitantes, e comece a desaparecer entre os papéis pardos dos burocratas, ou entre os zeros e uns informáticos? Pela uma da manhã o adro dorme solitário, tremendo sob o lume crepitante. O vento zurze entre os galhos da tília, e o ar começa a arrefecer. A noite torna-se mais escura, coberta de espessas nuvens. Começa a nevar. A princípio, flocos minúsculos de neve, quase invisíveis, que se desfazem de imediato ao tocar o chão. Depois, durante minutos, vão ganhando consistência; deixam de ser transparentes, transformando-se em flocos alvos, que descem em espirais, em torno da fogueira, confundindo-se com as faúlhas apagadas que terminam o seu voo.



quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Fogueira de Natal

      Em muitas aldeias do Interior de Portugal, a noite de Consoada é tradição ser passada em volta da fogueira de Natal normalmente situada junto do adro da Igreja. Nalgumas delas, a fogueira de Natal tem início na noite de Consoada e mantem-se a arder até ao dia de Reis. Esta tradição teve origem em cultos pagãos, na celebração do solstício de Inverno, no qual se acendiam grandes fogueiras ao ar livre. Apesar do frio que se faz sentir por ser Inverno, as pessoas não deixam de participar nesta tradição e o calor da fogueira juntamente com alguns petiscos e o convívio entre o povo aquecem o ambiente.
      Antigamente enfeitavam-se os carros de bois ou mais recentemente os tratores para ir aos troncos, havendo sempre uma enorme folia no seu transporte até junto da igreja onde lhes pegavam fogo. Hoje em dia, procede-se por cá à recolha de lenha sem enfeitar os veículos de transporte. Nalgumas localidades apenas se acende a fogueira após a Missa do Galo, enquanto noutras com o cair da noite a fogueira é acesa. As pessoas juntavam-se perto da fogueira, chegada a hora iam à Missa do Galo e quando esta terminava reuniam-se de novo junto da fogueira e por ali partilhavam experiências e vivências e se mantinham noite fora. Além da fogueira de Natal por cá também é tradição as pessoas tocarem os sinos da igreja na noite de consoada lembrando a chegada do Menino Jesus.

Lá na minha aldeia
Fazia-se a fogueira de Natal
Todos juntos em assembleia
Era uma festa de afectos sem igual.

Homens, mulheres e crianças
No largo se juntavam em redor da fogueira
Havia música, alegria, carinho e esperanças
Mais um Natal, uma festa, uma vida inteira.

Os minutos corriam, as horas nem se viam passar
A noite chegava, a fogueira de Natal iam acender
Com lenha, pneus, para que não se pudesse apagar
Eu, e todos os participantes, jamais iremos esquecer…

Saudade de tempos passados, dos amigos!
Nos Natais todos eramos família
A fraternidade, os sorrisos, muitos sorrisos
Ecoavam, junto à fogueira de Natal que se fazia.

Mc Batista



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A vida na grande terra

A vida na grande terra
Corrompe a humanidade.
Entre a cidade e a serra
Prefiro a serra à cidade.

O mundo só pode ser
Melhor do que até aqui,
-Quando consigas fazer
Mais p'los outros que por ti!

Quantas sedas aí vão,
Quantos colarinhos,
São pedacinhos de pão
Roubados aos pobrezinhos!

Quem prende a água que corre
É por si próprio enganado;
O ribeirinho não morre,
Vai correr por outro lado.

António Aleixo

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Dia de São Martinho

        O dia de São Martinho comemora-se hoje, 11 de Novembro. Neste dia, no nosso país, assam-se as castanhas e prova-se o vinho. Manda a tradição que este dia seja festejado com castanhas, agua pé e bom convívio.

        O magusto é a festa em que se assam as castanhas (que se colhem nesta altura) e se convive. Tem a ver com o momento em que, após a vindima, nos meses de Setembro e Outubro, o vinho está pronto e se prova.



Lenda de São Martinho

Segundo reza a lenda, num dia frio e tempestuoso de outono, um soldado romano, de nome Martinho, percorria o seu caminho montado no seu cavalo, quando deparou com um mendigo cheio de fome e frio. O soldado, conhecido pela sua generosidade, tirou a sua capa e com a espada cortou-a ao meio, cobrindo o mendigo com uma das partes. Mais adiante, encontrou outro pobre homem cheio de frio e ofereceu-lhe a outra metade. Sem capa, Martinho continuou a sua viagem ao frio e ao vento quando, de repente, como por milagre, o céu se abriu, afastando a tempestade. Os raios de sol começaram a aquecer a terra e o bom tempo prolongou-se por cerca de três dias. Desde essa altura, todos os anos, por volta do dia 11 de Novembro, surgem esses dias de calor, a que se passou a chamar "verão de São Martinho".



sábado, 2 de novembro de 2013

Dia de Finados 2 de Novembro

Lembramos nossos mortos neste dia
que consagramos tristes aos finados;
passaram para o Além e a lájea fria
apenas guarda os corpos sepultados.

Hoje tudo é perpétua nostalgia...
Ouvem-se preces, prantos desolados,
um porquê inexplicável excrucia
até os corações mais resignados.

Dos páramos celestes desce a luz,
iluminando a terra que se habita;
e a verdade mais crua se traduz

pela certeza natural e aflita
que fatalmente a todos nos conduz
à noite eterna... trágica... infinita...

Soneto de Finados - Ialmar Pio Schneider